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Diversão

Por que ficamos arrepiados ao ouvir música?

17 de agosto de 2022

5 min read

Sebastian Murgul

Sebastian Murgul

Por que ficamos arrepiados ao ouvir música?

Em pleno século XXI, com um mundo fragmentado de um lado e esperanças radiantes do outro, o único elemento que parece unir efetivamente essas duas pontas é a arte e suas diferentes formas. Tudo o que acalma os sentidos, permite escapar da rotina e enche a mente de tranquilidade se enquadra nessa categoria — e a música não é exceção. Há uma série de razões que explicam por que todos temos nossas playlists preferidas: além da conexão emocional, a música provoca um transe psicológico que estimula a descarga de adrenalina e deixa nossa mente e nosso corpo em um estado de êxtase. Quando gostamos de algo, isso geralmente nos empolga, e nosso corpo manifesta os sinais: o coração começa a bater mais forte, as pupilas se dilatam e o fluxo sanguíneo costuma ser redirecionado para as mãos e as pernas, fazendo com que os pés e as palmas das mãos esfriem. Todas essas reações têm origem no cerebelo, que é ativado ao perceber algo vibrante e cativante.

As complexidades do cérebro

Se você prestar bastante atenção, perceberá que, independentemente do ambiente ao seu redor, quando toca uma música que acerta em cheio as cordas do seu coração, o mundo inteiro desaparece e você mergulha em um estado no qual nada mais importa além dos elementos marcantes da música e da abstração momentânea em que, aos poucos, parece entrar. Na maioria das vezes, surge uma sensação de formigamento na parte de trás e no topo da cabeça e do corpo, que então dá lugar a arrepios sem nenhuma causa aparente. No entanto, a ciência discorda e nos oferece uma explicação convincente para tudo isso. Pesquisas afirmam que mais da metade da população sente arrepios ao ouvir uma música intensa ou comovente, ou simplesmente ao navegar por suas canções favoritas. Isso acontece porque, como já mencionamos, o cerebelo é ativado e sinaliza ao cérebro para aumentar a liberação de dopamina no sangue em direção ao corpo estriado. O corpo estriado do cérebro, por sua vez, só é ativado quando percebe algo viciante, gratificante, empolgante e estimulante.

A música parece despertar no corpo estriado os mesmos instintos que abrem caminho para essas sensações, assim como alguns esportes radicais ou a incerteza pouco antes de um resultado ou anúncio decisivo. Por um lado, quando conhecemos uma faixa, o corpo só se arrepia quando sabemos que estamos nos aproximando do auge ou já chegamos a ele — algo semelhante ao que costumamos chamar de clímax em um filme. Por outro lado, quando nunca ouvimos a música antes, os arrepios surgem de forma imprevisível, pois ela provoca o cérebro e deixa que a própria dopamina identifique os momentos capazes de proporcionar o nível ideal de satisfação.

As áreas cinzentas também importam

Há ainda outra teoria que se opõe a essa hipótese e afirma o contrário. Ela se baseia na constatação de que nosso corpo se arrepia mais ao ouvir músicas tristes do que outros tipos de música. Segundo essa teoria, quando palavras e melodias melancólicas chegam ao cérebro, elas nos levam de volta a um lugar de angústia, onde só prevalecem a desesperança e a dor. Isso significa que, logo após ouvirmos a música, se começarmos a associá-la a algum acontecimento do passado marcado por sofrimento e tristeza constantes, só então o cérebro desencadeará os arrepios.

Ainda assim, o aspecto mais intrigante dessa teoria está no fato de que os arrepios simbolizam uma reação positiva à música, mesmo quando as lembranças são devastadoras, e há uma estranha sensação de satisfação quando esses impulsos contrastantes se misturam. Assim, a experiência pode ser comparada a uma purgação, na qual a catástrofe serve para dissipar os sentimentos trágicos e transformar a experiência em algo extremamente positivo.

Quando a música supera suas expectativas

Por fim, os arrepios causados pela música não se restringem a um gênero específico. Você pode se arrepiar até mesmo com um trecho de um estilo musical de que não gosta muito — e essa é, sem dúvida, toda a beleza da experiência. Também precisamos reconhecer as reações que percorrem nosso corpo quando a música corresponde às nossas expectativas, ou seja, quando transita por caminhos que nos são familiares. Quando as melodias se encaixam perfeitamente no que antecipamos, o núcleo accumbens é intensamente estimulado. Essa reação está ligada à teoria da produção de dopamina: é justamente nos breves momentos em que o cérebro espera sua vez de acompanhar a fluidez da música que surgem os arrepios.

Esses fatores têm como base resultados de pesquisas científicas e estão relacionados principalmente à música e ao cérebro. Curiosamente, porém, às vezes a sua personalidade também importa. Segundo as descobertas de especialistas, se você é uma pessoa com uma aura mais ou menos positiva e gosta de encarar as situações imprevisíveis da vida com otimismo, a música certamente vai lhe causar arrepios. Assim como na vida, essas pessoas estão sempre em busca de algo interessante e diferente, que nunca conheceram antes, e querem explorar cada canto e descobrir tesouros escondidos para, no fim, decidir se gostam ou não da faixa. Essas conclusões foram obtidas em um estudo realizado na UNC Greensboro, mas pesquisadores da Alemanha contestam essa visão. Para eles, na verdade, quem prefere conforto a aventura tem maior probabilidade de sentir arrepios, pois vê a música como um refúgio repleto de recompensas. Como essas pessoas preferem seguir um padrão sem muitas mudanças, a música é a única coisa que lhes oferece uma base para vivenciar o inesperado sem ser, por si só, algo explicitamente imprevisível.


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